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o tempo perguntou ao tempo quanto tempo o tempo tem. o tempo respondeu ao tempo que o tempo tem tanto tempo quanto tempo o tempo tinhaArquivo para Junho, 2008
o fim da infância
O fim da infância é quando percebemos que não há justiça nas regras da vida, que o bem e o mal não são claros e definidos, que por isso o primeiro não vence sempre o segundo e que não adianta pensar que ser-se “bom” é sinónimo de ser-se “feliz”. Que não são só os maus que levam castigos, que os bons também os levam (vá-se lá saber porquê).
Basta ver qualquer programa dos canais abertos da manhã ou da tarde para perceber que tudo o que diz respeito às ideias de bem e mal e justeza não têm paralelo no dia-a-dia. Nem é preciso ler Nietsche.
O fim da infância é tramado. Para adolescentes com dúvidas, recomendo Maquiavel – o clássico “O Príncipe”, apropriado a jovens em maturação e que ainda sonhem com um mundo justo, daquela forma pura e bela que apenas pode existir nessas idades.
Para quem não goste muito de ler, aconselho http://pt.wikipedia.org/wiki/Jos%C3%A9_S%C3%B3crates e fica-se logo com uma ideia de como o conceito de justiça é volúvel como o humor de uma louva-a-deus.
a cantora, os voyeurs e os amigos da onça
Ouvi as histórias de uma cantora que tem uma voz muito expressiva e uma música contangiante. Disseram-me que ela andava sempre pedrada, com droga ou com álcool, ou que mais. Que é sempre uma incógnita se os concertos se realizam ou se ela está demasiado ébria para actuar… histórias tristes, acho eu.
Nem as conhecia, quando ouvi a música dela. Na verdade, nem sabia o nome dela, tampouco. Não fazia diferença. A música era do meu agrado e isso bastava…
Agora, faz-me muita impresão que haja uma multidão que, quando se fala na cantora, a primeira coisa que refira é o seu triste estado de degradação, como se estivessem a falar de um cavalo de corrida ou de uma novela qualquer.
E que acabe mesmo por ir ver os concertos na expectativa de ver a “animação” paralela.
Pior é haver toda uma máquina de fazer dinheiro a explorar essa mesma condição, chupando a galinha dos ovos de ouro até ela (provavelmente) se mirrar, finar ou outras coisas semelhantes que demonstrem uma morte anunciada por “exicação”.
Não haverá ninguém do grupo de amigos da onça que lhe trave a queda? Recuperações e recuperações…
Parece que se trata de uma operação de eutanásia, que “pelo menos” vai distribuindo dividendos em paralelo:
- trabalho à equipa
- vendas de discos
- entretenimento e tema de conversa
Esquecendo, pelo meio, que trata-se de uma pessoa de carne (pouca, cada vez menos), não de plástico. Como qualquer outra.
Caramba, se o que ela quer é fugir do mundo e ninguém está disposto a travá-la, então deixem-na fugir! Mas aplaudir ou explorar essa tristeza isso é demasiado degradante.
Desumano.